terça-feira, maio 27, 2014

Traduzir em narrativa

Os pensamentos de Deus ao nosso respeito não são como os nossos próprios pensamentos. Um sopro arrancou as minhas raízes e eu, à época, senti como se fosse punição. Eu pensei ser, obviamente, uma punição para o meu comportamento. Uma bronquinha de Deus. Uma advertência. Um puxão de orelhas. O que, de qualquer forma, doeu. No entanto, como já dito, os pensamentos de Deus não são como os nossos. Não foi punição: foi recompensa. Um prêmio por Ele ter visto, por segundos, uma vontade de ser mais. Meu coração ardeu por Ele. Por ser mais Dele. Por ser mais quem O agradasse. Ser mais relevante no Reino.

Agora, sentada aqui atrás, isso tudo me vem como lembrança. Me esforço para reter a lágrima. Acho difícil não chorar, mas, dessa vez, de alegria. Vejo a prancha no púlpito e dou risada, aliviada, por estar em um lugar, sobre o qual não entendo nada, e, ainda assim, fazer sentido no meu coração. A mesma sensação, que me invadiu quando subi os degraus da Praia Vermelha, me preenche neste, exato, momento: pertencimento.

Escrito pela recentíssima membro da Bola de Neve Church.

Marianne Menezes

quarta-feira, maio 14, 2014

2008

"Eu venho disfarçando minha total devoção a você. Finjo não saber da sua música favorita, ou do shampoo que você usa e, muito menos, do lugar onde você se senta durante as aulas de biologia. Finjo não reparar no seu sobrenome e na sua adoração, nos nossos intervalos, ao biscoito Fofura. Finjo não achar graça de todas as coisas que você já descobriu que me fazem rir. Finjo que mudei - finjo que você não saberia mais me fazer feliz.
Eu venho mentindo sobre nós dois já ter sido esquecido. Reviro os olhos quando você passa simulando minha vontade de te abraçar. Respondo ao seu "Bom dia" de maneira, formalmente, fria só para mascarar o quanto você aquece minha alma -- ainda. Cruzo minhas mãos, sobre o colo, quando você se senta ao meu lado: quero conter o impulso de fazer cafuné na sua cabeça. É difícil domar meus sentidos; eles não entendem o nosso "seguir em frente".
Ignoro seus sorriso. Não retorno suas ligações. Desvio o meu olhar. Troco de calçada se estamos próximos a nos esbarrar. Aceno para você com suas novas namoradas por aí. São formas, racionalmente, calculadas para o meu coração sarar. "
Dezembro de 2008

Joguei fora o papel, mas eternizei o texto aqui. Saudade de quando eu escrevia essas bobeiras como se fossem as mais sérias do mundo.

sábado, maio 10, 2014

Fátima

"Mãe faz escândalo, tira satisfação com professor, berra em público, dá vexame, deixa a gente sem graça, compra briga; é espaçosa, barulhenta, tendenciosa, leoa, tiete, dona da gente.

Mãe lê pensamento, tem premonição, sonhos estranhos. Conhece cara de choro, de gripe, de medo; entra sem bater, liga de madrugada, pede favor chato, palpita e implica com amigos, namorados, escolhas. Mãe dá a roupa do corpo, tempo, dinheiro, conselho, cuidado, proteção. Mãe dá um jeito, dá nó, dá bronca, dá força. Mãe cura cólica, porre, tristeza, pânico noturno, medos. Espanta monstros, pesadelos, bactérias, mosquitos, perigos. 

Mãe guarda tesouros, conta histórias e tece lembranças. Mãe é arquivo! 
Mãe exagera, exaure, extrapola. Mãe transborda, inunda, transcende. Ama, desmama, desarma, denota, manda, desmanda, desanda, demanda. Rumina o passado, remói dores, dá o troco, adora uma cobrança e um perdão lacrimoso. 

Mãe abriga, afaga, alisa, lambe; conhece as batidas do nosso coração, o toque dos nossos dedos, as cores do nosso olhar e ouve música quando a gente ri. Mãe tem coração de mãe.

Mãe é pedra no caminho, é rumo; é pedra no sapato, é rocha; é drama mexicano, tragédia grega e comédia italiana; é o maior dos clássicos; é colo, cadeira de balanço e divã de terapeuta... Mãe é madona-mia! É deus-me-acuda; é graças-a-deus. (...) Bicho estranho, entranha, milagre, façanha, matriz, alma, carne viva, laço de sangue, flor da pele. Mãe é mãe, e faz cada coisa..."

Hilda Lucas
-- Eu não saberia dizer melhor.

Amo a melhor mãe do mundo! 

sexta-feira, maio 02, 2014

Tempo do silêncio

"Vejo, sempre, que minha voz denuncia o que sinto. Minha ansiedade é notória no tremor nas minhas cordas vocais. Minhas frases, inclusive, são todas mal estruturadas nos momentos de nervosismo. (...) Sou incapaz, por exemplo, de reproduzir o som do r da palavra perigo.

Tenho, portanto, me mantido em silêncio. A ausência de som, nos meus dias de sossego, tem sido satisfatória. A confusão de possibilidades ao meu redor tem produzido sons muito perturbadores - e altos."


Transformar a experiência em narrativa.